Papel e Tudo

“Dizem que escrever ajuda a materializar os sonhos… Então, lá vai:

Quero transar com beijo-na-boca-profundo,
olhos nos olhos, eu te amo e muita sacanagem.

Quero cineminha com encosto de ombro cheiroso,
casar de branco, ser carregada no colo, filhos,
casinha no campo com cerquinha branca,
cachorro e caseiro bacana.

Quero ouvir Chet Baker numa noite chuvosa
e ter de um lado um livrinho na cabeceira da cama
e do outro o homem que amo.

Quero sambão com churrasco, ópera com soluços
e famílias reunidas.

Quero ter certeza, ali no fundo da alma dele,
de que ele me ama. Quero que ele saia correndo quando
meu peito amargurado precisar de riso.

Que ele esqueça, de vez em quando, seu lado egoísta,
e lembre do meu.

Que a gente brigue de ciúmes, porque ciúmes faz parte da paixão, e que faça as pazes rapidamente, porque paz faz parte do amor.

Quero ser lembrada em horários malucos, todos os horários, pra sempre.

Quero ser criança, mulher, homem, et, megera, maluca
e, ainda assim, olhada com total reconhecimento de território.

Quero sexo na escada e alguns hematomas e depois descanso numa cama nossa e pura.

Quero foto brega na sala, com duas crianças enfeitando nossa moldura.

Quero o sobrenome dele, o suor dele, a alma dele,
o dinheiro dele (brincadeira…).

Que ele me ame como a minha mãe, que seja mais forte
que o meu pai, que seja a família que escolhi pra sempre.

Quero que ele passe a mão na minha cabeça quando
eu for sincera em minhas desculpas e que ele me ignore
quando eu tentar enrolá-lo em minhas maldades.

Quero que ele me torne uma pessoa melhor,
que faça sexo como ninguém, que invente novas posições, que me faça comer peixe apimentado sem medo, respeite meus enjôos de sensibilidade, minhas esquisitices depressivas e morra de rir com meu senso de humor arrogante.

Que seja lindo de uma beleza que me encha de tesão
e que tenha um beijo que não desgaste com a rotina.

Que a sua remela seja sequinha e não gosmenta
e que o tempo leve um pouco de seu cabelo (adoro carecas…).

Que suas escatologias não passem de piada e se materializem bem longe de mim.

Tem que gostar de crianças, de cachorrinhos, da minha mãe, e tem que odiar ver pessoas procurando comida no lixo.

Tem que dançar charmoso, ser irônico, ser calmo porém macho (ou seja, não explodir por nada mas também não calar por tudo).

Tem que ser meio artista, mas também ter que saber cuidar dos meus problemas burocráticos.

Tem que amar tudo o que eu escrevo e me olhar com aquela cara de “essa mulher é única”.

É mais ou menos isso. Achou muito??
Claro que não precisa ser exatamente assim, tintim por tintim… Exigir demais pode fazer eu acabar sozinha
em mais shows do Roberto Carlos. Deus me livre!

Bom, analisando aqui, dá pra tirar umas coisinhas… Deixa eu ver…
Resumindo então: tem que dizer que me ama e me amar mesmo, tem que rolar umas sacanagens e não pode ter remela gosmenta. Pronto!

E quando eu tiver tudo isso e uma menina boba e invejosa me olhar e pensar que “aquela instituição feliz não passa de uma união solitária de aparências”, vou ter pena desse coração solitário que ainda não encontrou
o verdadeiro amor…”

Tati Bernardi

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